"Vivemos tempos difíceis, que só poderemos superar com o contibuto e sacrifício de todos".
A frase, de tão repetida, ganhou vida própria e rapidamente se tornou em todo um programa de governo. Os tempos difíceis permitiriam e justificariam tudo: cortes nas pretações sociais, aumento da comparticipação dos cidadãos no financiamento do Serviço Nacional de Saúde, cortes nos subsídios de férias e de Natal de funcionários públicos e pensionistas, aumento de IVA e redução das deduções à colecta com despesas de saúde e educação. Confrontados com tudo isto, os cidadãos foram aceitando a missão que lhes fora incumbida: salvar a nação. Com maior ou menor contestação, fomos tomando como nossa, como de todos, essa terrível missão. Quisemos dar o Exemplo. Afinal, o Exemplo vem de cima e numa democracia europeia, liberal e civilizada o Povo é o Soberano e compete ao Soberano dar o Exemplo. Seriamos certamente mais civilizados que os gregos, esse povo desprovido de História, preguiçoso e bárbaro e que nas fronteiras da Europa, a nossa Europa, não demonstrava o mínimo sentido de Estado e de devir colectivo, preferindo o caos à redenção. Seriamos diferentes, dariamos e seriamos o Exemplo. Um povo ao Sul, mas ansioso por cumprir o rigor do Norte. Os Cidadãos, o Povo, o Soberano tinha aqui a sua oportunidade de penitência e de mitificação como herói colectivo. Afinal tinhamos todos vivido acima das "possibilidades". Escolhida a nova elite, de entre os melhores da Casta, o programa seria executado com dedicação farisaica: não haveria desculpas nem excepções. O passado, fonte de vergonha e de todos os males não seria repetido. Este enredo épico resistiu seis meses. Foi ingénuo pensar que poderia ser diferente. Afinal isso seria ir contra a natureza da Casta. Independentemente da côr - curiosamente o seu significado original em sânscrito - , a Casta dificilmente reconhece o Soberano e ainda mais dificilmente o respeita ou cumpre com ele o tinha acordado. Afinal como Exemplo vem de cima, este apenas vincula o Soberano. A Casta não. A Casta pode acumular salários com pensões. A Casta tem valor de mercado. A Casta não vive acima das possibilidades. A Casta sabe e conhece tudo. A Casta sabe de finanças e de electricidade, às vezes ao mesmo tempo. A Casta tem curriculum, sempre o melhor. A Casta tem amigos. A Casta não entope os hospitais com falsas urgências. A Casta nunca está desempregada e por isso não entende o subsídio de desemprego. A Casta vê o Soberano não como o Cidadão, mas sempre como o Contibuinte e às vezes, de quando em vez, como o Eleitor. A Casta não sente vergonha, tem sentido de Estado.
Pedir que tudo isto mudasse em seis meses era demasiado exigente. Afinal o que o Soberano pedia era que a Casta deixasse de o ser. É isto legítimo? É isto constitucional? É isto Exemplo. Não, a Casta diz que Não.
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