
As sociedades necessitam de rituais para se perpetuarem. E, ao contrário do que possamos pensar, as sociedades modernas necessitam ainda mais desses rituais.
Num tempo de constante mudança, de tecnologia que se auto-aperfeiçoa a velocidade cada vez mais vertiginosa, o ritual da comemoração permite-nos, como ente colectivo, manter a ligação a um passado e origem comuns.
Comemoramos porque, apesar da individualidade de que não estamos dispostos a abdicar, sentimos que pertencemos a algo maior. A algo que nos ultrapassa e que nos sobreviverá. É esse sentimento de pertença intemporal que cria e alimenta o conceito de Nação. É essa a razão pela qual tantos julgam ser ridículo fazer sacrificar ao altar da suposta competitividade os feriados de 5 de Outubro e do 1º de Dezembro.
Vem isto a propósito da Cerimónia de Abertura do Ano Judicial. Ao longo dos últimos anos, não foi possível vislumbrar nessa cerimónia qualquer sentimento de pertença. Ao devir colectivo, tem sido cada vez mais sobreposto a defesa dos interesses particulares de cada uma das corporações judiciais.
Advogados contra juízes, magistrados do Ministério Público e funcionários judiciais contra o Ministério, todos contra o legislador, todos contra todos. É este o cenário de guerra civil que se vive na nação judicial. Ano após ano repetem-se as lamúrias. "Falta de meios", vociferam uns."Verborreia legislativa" sentenciam outros. "Manipulação da Política e dos políticos" disparam os restantes. Embora sejam profundas as divergências quanto ao diagnóstico, as corporações já não disfarçam o estado decrépito do paciente
E a como reage a nação política? A nação política, representada por Suas Excelências os Presidentes da República, da Assembleia da República e dos Grupos Parlamentares, todos aplaude. Aplaude tudo e o seu contrário. E no final apela. Apela e aplaude. Julga que se apelar e aplaudir poderá desfazer o nó da meada a que há muito perdeu o fio. O curioso é que são todos velhos conhecidos. Velhos conhecidos de longas e velhas carreiras. Por isso aplaudem, por isso apelam.
No próximo ano haverá nova Cerimónia de Abertura do Ano Judicial. Mas não haverá nem 5 de Outubro, nem 1º de Dezembro. Desconfio que a Nação não aplaudirá.
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