O
tempo em que vivemos é um tempo nebuloso de circunstâncias extraordinariamente
complexas, que tornam a atual crise de entendimento difícil. Podendo parecer
paradoxal, é também um tempo de vitória da política. De fato, nunca tantos
cidadãos se interessaram e se encontram envolvidos nos assuntos da governação do
Estado, como agora. As palavras défice, dívida pública, PPP (parceria público
privada), ajustamento, austeridade, privatizações, “eurobonds”, etc, passaram a fazer parte diária do nosso léxico, repetidas
até à exaustão pela classe política e analistas de serviço.
Desde
há meses, não há debate na Assembleia da República, não há conferência de
imprensa de Vitor Gaspar (ou de qualquer outro Ministro), controvérsia ou
artigo de opinião em que aqueles vocábulos não sejam usados. De igual modo, em conversas
de café ou em restaurantes, encontros fortuitos de amigos, tais palavras raramente
ficam de fora.
Mas,
mais importante do que as palavras são os significados que as mesmas transportam,
bem como as suas repercussões nas vidas dos cidadãos.
O dia 15 de Setembro foi, sem dúvida, exemplar,
no que se refere à matéria em questão. Ele passará a fazer parte da memória
coletiva do nosso povo. Milhares e milhares de pessoas, independentemente das
suas convicções políticas, saíram à rua em todas as capitais de distrito,
porque «acima de tudo, pretendiam ser ouvidas». Após esse dia, sucederam-se manifestações
de indignação. Pensionistas, trabalhadores, agentes culturais, empresários da
restauração, militares, juízes, «ninguém parece querer passar ao lado da crise».
Umas
e outras, são, antes de mais, manifestações de cidadania. É a vitória da
política!
Aos
políticos que nos conduziram até aqui e os que, impiedosamente, agora nos submetem
à dureza da austeridade, pode ser-lhes averbada a maior das vitórias da
política: a da mobilização dos cidadãos nos assuntos da governação do Estado
que a todos está a afetar implacavelmente.
Só
que, sendo a vitória da política, é também a derrota dos políticos!

