terça-feira, 23 de outubro de 2012

A vitória da política e a derrota dos políticos



O tempo em que vivemos é um tempo nebuloso de circunstâncias extraordinariamente complexas, que tornam a atual crise de entendimento difícil. Podendo parecer paradoxal, é também um tempo de vitória da política. De fato, nunca tantos cidadãos se interessaram e se encontram envolvidos nos assuntos da governação do Estado, como agora. As palavras défice, dívida pública, PPP (parceria público privada), ajustamento, austeridade, privatizações, “eurobonds”, etc, passaram a fazer parte diária do nosso léxico, repetidas até à exaustão pela classe política e analistas de serviço.

Desde há meses, não há debate na Assembleia da República, não há conferência de imprensa de Vitor Gaspar (ou de qualquer outro Ministro), controvérsia ou artigo de opinião em que aqueles vocábulos não sejam usados. De igual modo, em conversas de café ou em restaurantes, encontros fortuitos de amigos, tais palavras raramente ficam de fora.

Mas, mais importante do que as palavras são os significados que as mesmas transportam, bem como as suas repercussões nas vidas dos cidadãos.

 O dia 15 de Setembro foi, sem dúvida, exemplar, no que se refere à matéria em questão. Ele passará a fazer parte da memória coletiva do nosso povo. Milhares e milhares de pessoas, independentemente das suas convicções políticas, saíram à rua em todas as capitais de distrito, porque «acima de tudo, pretendiam ser ouvidas». Após esse dia, sucederam-se manifestações de indignação. Pensionistas, trabalhadores, agentes culturais, empresários da restauração, militares, juízes, «ninguém parece querer passar ao lado da crise».

Umas e outras, são, antes de mais, manifestações de cidadania. É a vitória da política!

Aos políticos que nos conduziram até aqui e os que, impiedosamente, agora nos submetem à dureza da austeridade, pode ser-lhes averbada a maior das vitórias da política: a da mobilização dos cidadãos nos assuntos da governação do Estado que a todos está a afetar implacavelmente.

Só que, sendo a vitória da política, é também a derrota dos políticos!

 

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