segunda-feira, 1 de abril de 2013

DERROTAR A AUSTERIDADE

 
 
Para justificar a realidade trágica e avassaladora de dificuldades que os portugueses vivem, alguns apaniguados militantes da Direita portuguesa e indefetíveis defensores do Governo, insistem em presentear a nossa inteligência com a teoria de que a origem dos nossos males tem o nome do nosso anterior primeiro-ministro. A falência do Lehman Brothers e a crise financeira internacional, a crise da dívida soberana na Grécia, na Irlanda, em Espanha, em Itália, em Chipre, tudo afinal foi causa da governação desse “diabólico” homem que ousou convencer os portugueses e ganhar duas eleições legislativas em Portugal.
Para eles nada interessam as consequências da desregulação dos mercados financeiros e os movimentos especulativos dos grandes interesses económicos que capturam os decisores políticos e a liberdade dos Estados, as insuficiências do quadro institucional da União Europeia, o holocausto social que esta inflexível política de austeridade está provocar no seio dos povos europeus. Cedo percebemos, aliás, que para eles o memorando da Troika não é uma imposição das circunstâncias mas sim uma boa desculpa para fazer o que sempre quiseram. Porque para eles tudo se resolverá com menos Estado, com a recapitalização dos bancos à custa dos Estados, com o pagamento da dívida soberana “custe o custar” e com a redução desse “despesismo” herdado do passado representado pelos salários, pensões e apoios sociais. E depois aí estará o futuro de prosperidade…
Mas alguém honestamente ainda pode acreditar nisto? Com a dívida pública que continua a crescer, o desemprego a atingir o milhão de portugueses, empresas sem clientes a fechar, jovens sem oportunidades a emigrar, os índices de desenvolvimento social e desigualdade a regredirem drasticamente e com o desespero que tantas famílias sentem ao lidarem com um empobrecimento forçado pelo aumento de impostos, custos de saúde, educação, transportes e cortes salariais, alguém pode continuar iludido pelo mito da austeridade próspera?
Também agora é um erro fulanizar as culpas do estado a que chegámos. Não. A culpa não se resume nem à obstinação irracional de Passos, nem à incompetência caricata de Gaspar, nem ao oportunismo conivente de Portas. A culpa está também no paradoxo desta ideologia que os inspira, no seguidismo acrítico da cartilha deste “ultra-neo-conservadorismo” europeu (que não se importou de romper com as melhores tradições da Democracia Cristã), na subserviência total à liderança e predomínio político de Merkel que rege a agenda europeia.   
Olhando para a Europa que temos hoje, talvez seja por isso ingénuo pensarmos que bastará mudar de Governo para mudar o que é necessário. Estaremos melhor, sem dúvida, mas ainda longe de um horizonte de esperança para o nosso futuro coletivo. Quem duvida que pergunte aos socialistas e à esquerda francesa que cedo assistiram frustrados à colisão frontal da “política de crescimento e emprego” de um Holland minoritário com o veto dilatório de uma maioria de líderes de Direita no núcleo decisório da União Europeia.
Quem acredita, por outro lado, que a raiz dos nossos problemas está nos espartilhos do Euro e que a solução se pode encontrar no regresso à soberania monetária retomando uma lógica de isolacionismo, pelos dados pouco convincentes que apresenta relativizando os riscos inerentes, parece que ainda deve estar a fazer contas no século passado, no tempo anterior à vertiginosa globalização económica em que vivemos e à integração no mercado interno europeu.
Neste contexto o que é necessária é essa tarefa de grande envergadura e ambição, e no quadro atual muito difícil, não o nego, de retomar o caminho do sonho europeu e do aprofundamento político da União Europeia. E para isso construir e mobilizar um abrangente movimento progressista de cidadania europeia que una os povos europeus em torno de um projeto político sólido e credível, alternativo ao paradigma vigente, por uma Europa solidária, centrada nas pessoas, capaz de recalibrar o sistema monetário europeu acima do interesse de qualquer Estado-Membro, de regular e moralizar os mercados financeiros, de estruturar um plano de investimento público de largo alcance promotor de crescimento e emprego e de compatibilizar com os critérios de rigor orçamental e fiscal dos pactos europeus uma nova exigência nos níveis de desenvolvimento social, combatendo a pobreza, o desemprego e as desigualdades.
Um movimento progressista que derrote nas urnas, em cada país europeu, em todas as eleições, locais, legislativas, europeias, os partidos da austeridade, legitimando democraticamente, com a força do voto dos cidadãos europeus, a mudança que precisamos na Europa para mudarmos, de facto, o nosso destino em Portugal.
Pedro Ramos Almeida
(publicado em Jornal de Lisboa - edição de Abril)
 

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