Para
justificar a realidade trágica e avassaladora de dificuldades que os portugueses
vivem, alguns apaniguados militantes da Direita portuguesa e indefetíveis
defensores do Governo, insistem em presentear a nossa inteligência com a teoria
de que a origem dos nossos males tem o nome do nosso anterior
primeiro-ministro. A falência do Lehman
Brothers e a crise financeira internacional, a crise da dívida soberana na
Grécia, na Irlanda, em Espanha, em Itália, em Chipre, tudo afinal foi causa da
governação desse “diabólico” homem que ousou convencer os portugueses e ganhar
duas eleições legislativas em Portugal.
Para
eles nada interessam as consequências da desregulação dos mercados financeiros
e os movimentos especulativos dos grandes interesses económicos que capturam os
decisores políticos e a liberdade dos Estados, as insuficiências do quadro
institucional da União Europeia, o holocausto social que esta inflexível política
de austeridade está provocar no seio dos povos europeus. Cedo percebemos, aliás,
que para eles o memorando da Troika não
é uma imposição das circunstâncias mas sim uma boa desculpa para fazer o que
sempre quiseram. Porque para eles tudo se resolverá com menos Estado, com a
recapitalização dos bancos à custa dos Estados, com o pagamento da dívida
soberana “custe o custar” e com a redução desse “despesismo” herdado do passado
representado pelos salários, pensões e apoios sociais. E depois aí estará o
futuro de prosperidade…
Mas
alguém honestamente ainda pode acreditar nisto? Com a dívida pública que
continua a crescer, o desemprego a atingir o milhão de portugueses, empresas sem
clientes a fechar, jovens sem oportunidades a emigrar, os índices de
desenvolvimento social e desigualdade a regredirem drasticamente e com o
desespero que tantas famílias sentem ao lidarem com um empobrecimento forçado pelo
aumento de impostos, custos de saúde, educação, transportes e cortes salariais,
alguém pode continuar iludido pelo mito da austeridade próspera?
Também
agora é um erro fulanizar as culpas do estado a que chegámos. Não. A culpa não
se resume nem à obstinação irracional de Passos, nem à incompetência caricata
de Gaspar, nem ao oportunismo conivente de Portas. A culpa está também no
paradoxo desta ideologia que os inspira, no seguidismo acrítico da cartilha
deste “ultra-neo-conservadorismo” europeu (que não se importou de romper com as
melhores tradições da Democracia Cristã), na subserviência total à liderança e predomínio
político de Merkel que rege a agenda europeia.
Olhando
para a Europa que temos hoje, talvez seja por isso ingénuo pensarmos que
bastará mudar de Governo para mudar o que é necessário. Estaremos melhor, sem
dúvida, mas ainda longe de um horizonte de esperança para o nosso futuro
coletivo. Quem duvida que pergunte aos socialistas e à esquerda francesa que
cedo assistiram frustrados à colisão frontal da “política de crescimento e
emprego” de um Holland minoritário com o veto dilatório de uma maioria de
líderes de Direita no núcleo decisório da União Europeia.
Quem
acredita, por outro lado, que a raiz dos nossos problemas está nos espartilhos
do Euro e que a solução se pode encontrar no regresso à soberania monetária
retomando uma lógica de isolacionismo, pelos dados pouco convincentes que
apresenta relativizando os riscos inerentes, parece que ainda deve estar a
fazer contas no século passado, no tempo anterior à vertiginosa globalização
económica em que vivemos e à integração no mercado interno europeu.
Neste
contexto o que é necessária é essa tarefa de grande envergadura e ambição, e no
quadro atual muito difícil, não o nego, de retomar o caminho do sonho europeu e
do aprofundamento político da União Europeia. E para isso construir e mobilizar
um abrangente movimento progressista de cidadania europeia que una os povos
europeus em torno de um projeto político sólido e credível, alternativo ao
paradigma vigente, por uma Europa solidária, centrada nas pessoas, capaz de
recalibrar o sistema monetário europeu acima do interesse de qualquer
Estado-Membro, de regular e moralizar os mercados financeiros, de estruturar um
plano de investimento público de largo alcance promotor de crescimento e
emprego e de compatibilizar com os critérios de rigor orçamental e fiscal dos
pactos europeus uma nova exigência nos níveis de desenvolvimento social, combatendo
a pobreza, o desemprego e as desigualdades.
Um
movimento progressista que derrote nas urnas, em cada país europeu, em todas as
eleições, locais, legislativas, europeias, os partidos da austeridade,
legitimando democraticamente, com a força do voto dos cidadãos europeus, a
mudança que precisamos na Europa para mudarmos, de facto, o nosso destino em
Portugal.
Pedro
Ramos Almeida
(publicado em Jornal de Lisboa - edição de Abril)
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