terça-feira, 23 de abril de 2013

Na trincheira




É hoje uma evidência que o atual Governo optou deliberadamente por não acolher qualquer sugestão ou proposta oriunda do espaço exterior às forças políticas que serve, não dando ouvidos a ninguém, designadamente ao maior partido da oposição (PS).

De fato, em todas as revisões (e foram já sete!) do Memorando da Troika o Governo agiu, pasme-se, como se fosse o dono do país. Aliás, o mesmo se tem verificado noutras áreas da governação, onde os contributos dos partidos da oposição têm sido quase sempre ignorados.

Contudo, o tempo tem-se encarregado de demonstrar que algumas das propostas eram bem razoáveis, exequíveis e por conseguinte, passíveis de consenso alargado que teriam poupado ao governo dissabores e dado ao país soluções e a estabilidade de que tanto necessita.

Vejamos alguns exemplos. O Partido Socialista, começou por apresentar à Assembleia da República um pacote legislativo sobre ética e transparência na vida pública, de que se salienta o combate ao enriquecimento ilícito. Porém, a maioria parlamentar que suporta o governo, após recusar a proposta do PS, aprovou uma legislação da exclusiva autoria da Ministra da Justiça que, não obstante os alertas do maior partido da oposição e de reputados especialistas para  a sua inconstitucionalidade, acabou ser, em abril do ano passado, chumbado pelo Tribunal Constitucional. Um ano volvido, continuamos a aguardar por iniciativa legislativa de combate ao enriquecimento ilícito

Em suma, ficámos todos a perder com a falta de consenso numa matéria tão importante como esta e em que o consenso tinha sido não só desejável, como possível.

No setor da economia, o maior partido da oposição tem insistido para a necessidade de redução da taxa máxima do IVA, na restauração, imposta pela maioria PSD/PP. Hoje, apenas os mais radicais apoiantes do governo, não consideram que essa redução seria estimulante para uma importante área da nossa economia. Contudo, o Governo não aceita sequer discutir esta proposta que poderia facilmente obter o consenso da Assembleia da República.

Recentemente, o Tribunal Constitucional (e o Presidente da República) veio dar razão a todos os que vinham alertando para a não conformidade à Constituição da República Portuguesa de várias medidas constantes do Orçamento de Estado para 2013. Bastaria alguma humildade democrática e ter-se-ia evitado um conflito institucional entre os órgãos de soberania, Governo e Tribunal Constitucional. Mas acima de tudo, tinha-se evitado que tivesse crescido o fosso entre governantes e governados.

Estes exemplos mostram que o Governo se mantém dentro do reduto das trincheiras da maioria que o suporta na Assembleia da República, urgindo  mudar para outra,  assente no maior consenso possível.

Num quadro de descalabro nacional, não é mais admissível manter um Governo entrincheirado nas suas próprias linhas.


Sem comentários: