Depois de mais uma remodelação, é no
mínimo curioso verificar que em pastas cruciais do Governo estão agora
académicos que não viviam em Portugal. Em Toronto, Bruxelas ou Florença, o
Primeiro-Ministro, que não hesita em recomendar o caminho da emigração aos
portugueses, continua ironicamente a recrutar fora do país. Sem prejuízo do seu
mérito académico mas tendo presente o fracasso já evidenciado nos resultados
das primeiras escolhas, é caso para perguntar se uma opinião no Facebook, Blog ou Jornal ou uma análise técnica sobre uma folha de Excel são suficientes para garantir uma identificação
mínima com o quotidiano dos portugueses que possa garantir a desejável eficácia
da ação governativa? Não existirá entre as “elites”
sempre disponíveis para comentar, gente em Portugal disponível para a espinhosa
missão de governar?
No momento em que a relação das
pessoas com a Democracia se encontra fragilizada e se impõe a reinvenção da
política e dos modelos de intervenção e participação, não é certamente
aconselhável desconsiderar nas escolhas que se fazem o fator da proximidade. Em
primeiro lugar, porque é a proximidade que mais facilmente garante a
reconstrução da confiança com os cidadãos nos sistemas de representatividade e,
por outro lado, é a proximidade que confere uma melhor sensibilidade para a
compreensão dos problemas e desafios e assim garante as melhores decisões. Nestes
casos ou dos candidatos a Câmaras Municipais paraquedistas que facilmente substituem
a sua “paixão” por uma terra por
outra ao lado ou uns Kms mais abaixo,
ou mesmo os Deputados europeus que se perpetuam na vivência de Bruxelas,
podemos questionar se determinadas escolhas não diminuem a pretendida credibilidade,
legitimidade e eficácia do nosso sistema de representação democrática.
No caminho certo está Lisboa que
compreendeu a importância da proximidade. O sucesso do envolvimento e
participação nos Orçamentos Participativos, as reuniões descentralizadas da
Câmara Municipal, as novas plataformas tecnológicas de relacionamento com os
munícipes nas mais diversas áreas e, com particular destaque, a estruturante
reforma administrativa das freguesias de Lisboa, demonstram isso mesmo.
Ao contrário da disparatada lei de extinção
de freguesias do Governo, no concelho de Lisboa não se receou a
descentralização e a reforma administrativa foi feita como deve ser. Partindo
de um estudo universitário, passando por um acordo político e pelo envolvimento
das populações, as novas juntas de freguesias de Lisboa, decididas com critério
e séria legitimidade democrática, ganham dimensão mas também uma nova dignidade,
com mais competências e meios e, assim, uma capacidade superior para
corresponder às necessidades das pessoas. Porque é aqui, onde encontramos
genuíno e altruístico serviço público, que está a total proximidade de quem
anda na rua todos os dias, em contato direto e sem uma muralha de jornalistas,
assessores e guarda-costas, de quem ouve os anseios, as preocupações e, tantas
vezes nos tempos que vivemos, o desespero das pessoas que já não têm como pagar
para poderem viver. E ao contrário de outras instâncias de poder, aqui o que se
pode investir tem retorno garantido em satisfação e melhoria da vida das
pessoas.
Talvez por isso, alguns Ministros que
insistem em relativizar a realidade dura e crua dos portugueses, antes de o
serem, ganhariam em acrescentar aos doutoramentos alguns anos de tirocínio numa
Junta de Freguesia. Seguramente alguns erros nunca seriam cometidos e a nossa democracia
ficaria a ganhar com menos ministros remodelados (ou à espera de remodelação) e
mais ministros bem sucedidos.
Pedro Ramos Almeida
(JORNAL DE LISBOA - MAIO 2013)
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