O insuportável
impasse político que o país vive com um Governo destroçado, descredibilizado,
desorientado, um Presidente politicamente anémico, agrava-se a cada nova novela
que conhecemos vivida entre os ministros da coligação, sejam elas sobre a TSU
dos pensionistas ou sobre os despedimentos de funcionários públicos.
Portas é
letalmente atropelado pela contradição das decisões do Governo com as próprias
palavras em cada declaração oficial aos militantes ou aos portugueses. Gaspar
continua a falhar mais que as previsões de qualquer astrólogo de 5ª categoria.
A autoridade de Passos Coelho com tudo isto já está morta. O país está parado,
sem objetivos, sem esperança, e assiste perplexo ao rumo inexorável de desastre
em que a tecnocracia e o fanatismo ideológico deste Governo nos lançaram à
boleia dos “magos” da chamada Troika.
Para onde vamos?
Ninguém sabe. A desconfiança em relação ao futuro alastra e apenas esbarra na
felicidade e regozijo minoritário de um qualquer especulador financeiro que por
trás da opacidade dos negócios de Estado e de esquemas imorais de planeamentos
fiscal continua impunemente a gerir a sua fortuna e a tratar como quer o
destino de um povo e de uma nação como mais 8 séculos de história.
E de que nos
vale esta estabilidade falida que só favorece os grandes interesses financeiros
e vai corroendo de morte a nossa democracia? E o que valerá essa estabilidade
depois de umas eleições locais em breve que, tudo indica, prometem varrer
merecidamente os partidos da coligação das autarquias e reduzir o Governo e os
ministros a figurantes sem legitimidade substantiva de ação, ainda por cima no
início de discussão de um dos mais difíceis Orçamentos de Estado?
Um bom democrata
deve aceitar o cumprimento dos mandatos e defender a estabilidade é certo, mas
como um meio e nunca como um fim em si mesmo, sobretudo quando se torna
auto-destrutiva. No período histórico exigente em que vivemos, Portugal não se
pode dar ao luxo de baixar os braços, de não dar o melhor de si, de abdicar de
uma liderança forte, congregadora e corajosa só porque uma coligação de
partidos se decide amarrar ao poder, mesmo com uma maioria social que vai da
Esquerda à Direita contra si, ou só porque um Presidente insiste mais em ter fé
em santos religiosos do que crença na capacidade dos portugueses de assumirem
as suas escolhas.
Nesta casa de
palha em chamas e em fragmentação irreversível, em que uma certa Direita
insiste em querer ver-nos a viver, mais pobres e mais divididos, há que
encontrar rapidamente as portas de saída para outra construída com a solidez de
tijolo, que sirva a todas as gerações de portugueses, alicerçada em
responsabilidade e sentido de futuro.
Com os dados que
temos hoje, Cavaco tem de decidir. Ou assiste passivamente à destruição do país
e à espiral de descrédito e fragilização do Governo, talvez esperando com isso desfrutar
de mais influência nas decisões governamentais, remetendo-nos por força das
consequências para um segundo resgate ou até para fora do Euro, e desta feita
para eleições antecipadas nessa altura ou, pelo contrário, decide agir agora,
aceitando a realidade e a necessidade urgente de reforço da legitimidade
democrática do Governo para a mobilização do país e a defesa dos interesses de
Portugal na Europa, aproveitando as eleições autárquicas, com poupança de tempo
e recursos, para um sufrágio simultâneo de escolha de um novo parlamento e
assim de um novo Governo e de um novo Primeiro-Ministro, a tempo de fazer do
próximo Orçamento de Estado a porta de saída desta crise política, económica e
social, com um novo rumo para Portugal.
Pedro Ramos
Almeida
(publicado a 1 de Junho no "Jornal de Lisboa")
