segunda-feira, 17 de junho de 2013

PORTAS DE SAÍDA


 
O insuportável impasse político que o país vive com um Governo destroçado, descredibilizado, desorientado, um Presidente politicamente anémico, agrava-se a cada nova novela que conhecemos vivida entre os ministros da coligação, sejam elas sobre a TSU dos pensionistas ou sobre os despedimentos de funcionários públicos.

Portas é letalmente atropelado pela contradição das decisões do Governo com as próprias palavras em cada declaração oficial aos militantes ou aos portugueses. Gaspar continua a falhar mais que as previsões de qualquer astrólogo de 5ª categoria. A autoridade de Passos Coelho com tudo isto já está morta. O país está parado, sem objetivos, sem esperança, e assiste perplexo ao rumo inexorável de desastre em que a tecnocracia e o fanatismo ideológico deste Governo nos lançaram à boleia dos “magos” da chamada Troika.

Para onde vamos? Ninguém sabe. A desconfiança em relação ao futuro alastra e apenas esbarra na felicidade e regozijo minoritário de um qualquer especulador financeiro que por trás da opacidade dos negócios de Estado e de esquemas imorais de planeamentos fiscal continua impunemente a gerir a sua fortuna e a tratar como quer o destino de um povo e de uma nação como mais 8 séculos de história.

E de que nos vale esta estabilidade falida que só favorece os grandes interesses financeiros e vai corroendo de morte a nossa democracia? E o que valerá essa estabilidade depois de umas eleições locais em breve que, tudo indica, prometem varrer merecidamente os partidos da coligação das autarquias e reduzir o Governo e os ministros a figurantes sem legitimidade substantiva de ação, ainda por cima no início de discussão de um dos mais difíceis Orçamentos de Estado?

Um bom democrata deve aceitar o cumprimento dos mandatos e defender a estabilidade é certo, mas como um meio e nunca como um fim em si mesmo, sobretudo quando se torna auto-destrutiva. No período histórico exigente em que vivemos, Portugal não se pode dar ao luxo de baixar os braços, de não dar o melhor de si, de abdicar de uma liderança forte, congregadora e corajosa só porque uma coligação de partidos se decide amarrar ao poder, mesmo com uma maioria social que vai da Esquerda à Direita contra si, ou só porque um Presidente insiste mais em ter fé em santos religiosos do que crença na capacidade dos portugueses de assumirem as suas escolhas.

Nesta casa de palha em chamas e em fragmentação irreversível, em que uma certa Direita insiste em querer ver-nos a viver, mais pobres e mais divididos, há que encontrar rapidamente as portas de saída para outra construída com a solidez de tijolo, que sirva a todas as gerações de portugueses, alicerçada em responsabilidade e sentido de futuro.

Com os dados que temos hoje, Cavaco tem de decidir. Ou assiste passivamente à destruição do país e à espiral de descrédito e fragilização do Governo, talvez esperando com isso desfrutar de mais influência nas decisões governamentais, remetendo-nos por força das consequências para um segundo resgate ou até para fora do Euro, e desta feita para eleições antecipadas nessa altura ou, pelo contrário, decide agir agora, aceitando a realidade e a necessidade urgente de reforço da legitimidade democrática do Governo para a mobilização do país e a defesa dos interesses de Portugal na Europa, aproveitando as eleições autárquicas, com poupança de tempo e recursos, para um sufrágio simultâneo de escolha de um novo parlamento e assim de um novo Governo e de um novo Primeiro-Ministro, a tempo de fazer do próximo Orçamento de Estado a porta de saída desta crise política, económica e social, com um novo rumo para Portugal.

 

Pedro Ramos Almeida
(publicado a 1 de Junho no "Jornal de Lisboa")