sexta-feira, 2 de agosto de 2013

29 DE SETEMBRO – DIA DA SALVAÇÃO NACIONAL


 

Por mais enredos e narrativas que se construam à volta do que se passou no país depois da crise política aberta no seio da coligação governativa, com declarações irrevogáveis ou compromissos falhados de salvação nacional, o facto político mais significativo residiu na demissão e derrota assumida de Vítor Gaspar, primeiro ideólogo ou primeiro-ministro de facto, rosto da austeridade radical que destruiu o nosso país nos últimos dois anos. 

Apesar das consequências criminosas que a sua política teve no presente e futuro dos portugueses, Vítor Gaspar presenteou-nos com um último momento de singular honestidade política e intelectual na sua carta de demissão reconhecendo expressamente, entre várias tiradas de pura autocrítica, que «o incumprimento dos limites originais do programa para o défice e a dívida, em 2012 e 2013, foi determinado por uma queda muito substancial da procura interna e por uma alteração na sua composição que provocaram uma forte quebra nas receitas tributárias», «a repetição destes desvios minou a minha credibilidade enquanto ministro das finanças» a que acrescentou ainda, de forma muito clara, a ideia de que «o sucesso do programa de ajustamento exige que cada um assuma as suas responsabilidades».

Foi fácil assim compreender que o principal mentor das políticas do Governo não só assumiu o seu completo falhanço como considerou que o mesmo justificaria uma necessária assunção de responsabilidades e consequências políticas. Gaspar caiu derrotado por uma realidade avassaladora de tragédia social e económica assumindo sozinho uma responsabilidade que não foi apenas sua mas de todo um Governo e em especial de Passos Coelho e Paulo Portas.

Obcecado com os mercados e o princípio da estabilidade política, com a crise de desagregação da coligação, Cavaco tentou promover um compromisso entre partidos alheando-se de uma avaliação necessária sobre os resultados das políticas seguidas, desconsiderando as evidências gritantes que o próprio Ministro das Finanças substituído admitiu. Viabilizando a sua continuidade, Cavaco avalizou o caminho de desastre seguido por PSD e CDS no Governo e relativizou o sofrimento de um país, calando o seu direito a expressar uma vontade de mudança urgente de rumo através de eleições legislativas antecipadas.

Perante a insensibilidade democrática e social de Cavaco, a obstinação Kamikasi de Passos Coelho e o oportunismo irrevogável de Portas, ao povo resta apenas o único instrumento potencialmente transformador da nossa realidade política a curto prazo: o voto nas eleições autárquicas no dia 29 de Setembro. Com um voto retumbante e punitivo para os partidos da austeridade que estão no Governo tornar-se-á certamente insustentável a sua permanência no poder e tornará inevitável uma mudança política, esta sim, de salvação nacional.

E quando os “opinadores independentes” vierem de novo com a lengalenga do “caminho único” e da ausência de alternativas à política de austeridade, muito especialmente os eleitores de Lisboa poderão responder com a realidade da sua cidade, de uma governação progressista com resultados, que está a ser capaz de combater a crise aliando o rigor e disciplina orçamentais e as reformas estruturantes, à promoção do empreendedorismo e do desenvolvimento económico, ao reforço das políticas sociais e dos espaços de participação cívica.

Pedro Ramos Almeida  

(JORNAL DE LISBOA - EDIÇÃO DE AGOSTO)

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