Por mais enredos e narrativas que
se construam à volta do que se passou no país depois da crise política aberta
no seio da coligação governativa, com declarações irrevogáveis ou compromissos
falhados de salvação nacional, o facto político mais significativo residiu na
demissão e derrota assumida de Vítor Gaspar, primeiro ideólogo ou
primeiro-ministro de facto, rosto da austeridade radical que destruiu o nosso
país nos últimos dois anos.
Apesar das consequências
criminosas que a sua política teve no presente e futuro dos portugueses, Vítor
Gaspar presenteou-nos com um último momento de singular honestidade política e intelectual
na sua carta de demissão reconhecendo expressamente, entre várias tiradas de
pura autocrítica, que «o incumprimento
dos limites originais do programa para o défice e a dívida, em 2012 e 2013, foi
determinado por uma queda muito substancial da procura interna e por uma
alteração na sua composição que provocaram uma forte quebra nas receitas
tributárias», «a repetição destes desvios minou a minha credibilidade enquanto
ministro das finanças» a que acrescentou ainda, de forma muito clara, a
ideia de que «o sucesso do programa de
ajustamento exige que cada um assuma as suas responsabilidades».
Foi fácil assim compreender que o
principal mentor das políticas do Governo não só assumiu o seu completo
falhanço como considerou que o mesmo justificaria uma necessária assunção de
responsabilidades e consequências políticas. Gaspar caiu derrotado por uma
realidade avassaladora de tragédia social e económica assumindo sozinho uma
responsabilidade que não foi apenas sua mas de todo um Governo e em especial de
Passos Coelho e Paulo Portas.
Obcecado com os mercados e o princípio
da estabilidade política, com a crise de desagregação da coligação, Cavaco
tentou promover um compromisso entre partidos alheando-se de uma avaliação
necessária sobre os resultados das políticas seguidas, desconsiderando as
evidências gritantes que o próprio Ministro das Finanças substituído admitiu.
Viabilizando a sua continuidade, Cavaco avalizou o caminho de desastre seguido
por PSD e CDS no Governo e relativizou o sofrimento de um país, calando o seu
direito a expressar uma vontade de mudança urgente de rumo através de eleições
legislativas antecipadas.
Perante a insensibilidade
democrática e social de Cavaco, a obstinação Kamikasi de Passos Coelho e o oportunismo irrevogável de Portas, ao
povo resta apenas o único instrumento potencialmente transformador da nossa
realidade política a curto prazo: o voto nas eleições autárquicas no dia 29 de
Setembro. Com um voto retumbante e punitivo para os partidos da austeridade que
estão no Governo tornar-se-á certamente insustentável a sua permanência no
poder e tornará inevitável uma mudança política, esta sim, de salvação
nacional.
E quando os “opinadores
independentes” vierem de novo com a lengalenga do “caminho único” e da ausência
de alternativas à política de austeridade, muito especialmente os eleitores de
Lisboa poderão responder com a realidade da sua cidade, de uma governação
progressista com resultados, que está a ser capaz de combater a crise aliando o
rigor e disciplina orçamentais e as reformas estruturantes, à promoção do
empreendedorismo e do desenvolvimento económico, ao reforço das políticas sociais
e dos espaços de participação cívica.
Pedro Ramos Almeida
(JORNAL DE LISBOA - EDIÇÃO DE AGOSTO)

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