Quando
em 5 de Junho de 2011 os portugueses decidiram que estava na altura de mudar os
seus representantes na Assembleia da República e no Governo, José Sócrates e o
Partido Socialista apresentavam já um enorme desgaste político.
O
estilo algo autoritário do então Primeiro-Ministro era um dos motivos da
saturação dos portugueses. A paralisação do Governo, na sua ação política, foi o
rastilho para a crise. Convém recordar que à data, uma coligação negativa de todos
os partidos da oposição, revogava semanalmente importante legislação aprovada
pelo Governo. Na rua, esta coligação negativa era apoiada pelos sindicatos e em
particular, pelos sindicatos de professores.
O chumbo
do PEC IV por todos os partidos da oposição com assento parlamentar e a chegada
da Troika ao país, foram o pretexto para a interrupção voluntária do mandato em
curso, com José Sócrates a apresentar a sua demissão. O resultado das eleições
mais não fez do que confirmar nas urnas, o divórcio existente entre os cidadãos
e os eleitos.
Mesmo
em períodos conturbados, as eleições demonstraram que era possível, com
tranquilidade, renovar a legitimidade dos governantes. Goste-se ou não, isso
constituiu um facto positivo desse período.
O
que aconteceu logo a seguir e de que é exemplo o conjunto de promessas
eleitorais imediatamente esquecidas pelo atual Governo (não aumentar impostos,
não cortar salários nem pensões dos trabalhadores do Estado) foi mais um rude golpe
no contrato de confiança que se estabelece nas eleições entre os cidadãos e os
seus representantes.
Os episódios
seguintes são por todos conhecidos, convindo relembrar que tal como foi muito
controverso a forma como José Sócrates se havia licenciado, a seguir passou a
ser completamente inadmissível ter um Ministro, o Dr. Relvas, com uma
licenciatura instantânea, a governar.
De
modo similar, tal como antes foi pouco claro a forma como organismos públicos
haviam adquirido produtos financeiros duvidosos, agora aparece como absolutamente
incompatível nomear para governantes quem vendeu contratos financeiros
especulativos (Swaps) ao Estado.
Mais,
depois do saque de que fomos vítimas com o processo BPN, é eticamente
inaceitável nomear como governantes personalidades que desempenharam funções naquele Banco.
É esta
crise de confiança entre eleitores e eleitos, o maior dos problemas que hoje
enfrentamos e que o senhor Presidente da República não quis resolver. E é assim
que vamos ter já em Setembro eleições autárquicas. Face a inúmeros repetentes
que personificam atabalhoadas escolhas das secções partidárias locais, feitas
ao arrepio do princípio da limitação dos mandatos, pode-se estar perante o
último folego de uma determinada forma de fazer política.

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