terça-feira, 13 de agosto de 2013

O Último Folego



Quando em 5 de Junho de 2011 os portugueses decidiram que estava na altura de mudar os seus representantes na Assembleia da República e no Governo, José Sócrates e o Partido Socialista apresentavam já um enorme desgaste político.

O estilo algo autoritário do então Primeiro-Ministro era um dos motivos da saturação dos portugueses. A paralisação do Governo, na sua ação política, foi o rastilho para a crise. Convém recordar que à data, uma coligação negativa de todos os partidos da oposição, revogava semanalmente importante legislação aprovada pelo Governo. Na rua, esta coligação negativa era apoiada pelos sindicatos e em particular, pelos sindicatos de professores.

O chumbo do PEC IV por todos os partidos da oposição com assento parlamentar e a chegada da Troika ao país, foram o pretexto para a interrupção voluntária do mandato em curso, com José Sócrates a apresentar a sua demissão. O resultado das eleições mais não fez do que confirmar nas urnas, o divórcio existente entre os cidadãos e os eleitos.

Mesmo em períodos conturbados, as eleições demonstraram que era possível, com tranquilidade, renovar a legitimidade dos governantes. Goste-se ou não, isso constituiu um facto positivo desse período.

O que aconteceu logo a seguir e de que é exemplo o conjunto de promessas eleitorais imediatamente esquecidas pelo atual Governo (não aumentar impostos, não cortar salários nem pensões dos trabalhadores do Estado) foi mais um rude golpe no contrato de confiança que se estabelece nas eleições entre os cidadãos e os seus representantes.

Os episódios seguintes são por todos conhecidos, convindo relembrar que tal como foi muito controverso a forma como José Sócrates se havia licenciado, a seguir passou a ser completamente inadmissível ter um Ministro, o Dr. Relvas, com uma licenciatura instantânea, a governar.

De modo similar, tal como antes foi pouco claro a forma como organismos públicos haviam adquirido produtos financeiros duvidosos, agora aparece como absolutamente incompatível nomear para governantes quem vendeu contratos financeiros especulativos (Swaps) ao Estado.

Mais, depois do saque de que fomos vítimas com o processo BPN, é eticamente inaceitável nomear como governantes personalidades que  desempenharam funções naquele Banco.

É esta crise de confiança entre eleitores e eleitos, o maior dos problemas que hoje enfrentamos e que o senhor Presidente da República não quis resolver. E é assim que vamos ter já em Setembro eleições autárquicas. Face a inúmeros repetentes que personificam atabalhoadas escolhas das secções partidárias locais, feitas ao arrepio do princípio da limitação dos mandatos, pode-se estar perante o último folego de uma determinada forma de fazer política.


Sem comentários: