sexta-feira, 6 de setembro de 2013

QUE NINGUÉM FIQUE EM CASA






Muitos são os portugueses que se habituam a lançar “bitaites” do seu sofá e a apontar sempre o dedo aos outros pelos seus próprios males. E quando são interpelados a participar na reunião da Assembleia de Freguesia, no abaixo-assinado dos vizinhos, na Assembleia Geral do clube ou da associação do bairro, nas eleições do país, escolhem tantas vezes ficar em casa, contribuindo, com a sua omissão, para que tudo o que criticam fique na mesma.

Bem sabemos que, porventura, os maus exemplos e más práticas de muitos protagonistas e dirigentes desmotivam a participação de muitos de nós mas não fazê-lo, por mais que custe admitir a alguns, é o melhor contributo prático para que aquelas se perpetuem.

E mesmo com as inúmeras insuficiências e defeitos que a nossa democracia possa ainda ter, a verdade é que nos últimos anos, a par do surgimento de poderosíssimos espaços de participação informais nas redes digitais, tem sido possível aos poderes públicos aprofundar e alargar os instrumentos de responsabilização e participação cívica institucionais.

Os portugueses têm, por exemplo, à sua disposição: o poder de iniciativa legislativa; de provocar a convocação de referendos populares nacionais ou locais; de suscitar mediante petição um debate parlamentar; a possibilidade de através de “grupos de cidadãos independentes” se candidatarem a autarquias locais; um período garantido de intervenção em todas a reuniões autárquicas públicas; a oportunidade de participação em orçamentos participativos autárquicos (como é exemplo Lisboa); a garantia reforçada de acesso aos documentos administrativos e de participação nos processos de decisão; o escrutínio facilitado pela via digital de toda atividade parlamentar, legislativa e de toda a contratação pública; ou um processo simplificado de constituição “na hora” de associações de cariz cívico.

Faltará ainda à nossa democracia melhorar e muito os métodos e processos de escolha de candidatos, representantes ou dirigentes públicos a todos os níveis, conferindo mais transparência aos critérios de escolha e garantias mais exigentes de uma escrupulosa defesa do interesse público no exercício dos mandatos, imune a promiscuidades e pressões ilegítimas de interesses particulares, seguindo os melhores modelos aplicados noutros países e instâncias.

Não obstante, estivéssemos nós todos, enquanto cidadãos, empenhados na utilização em pleno dos virtuosos expedientes de escrutínio e participação democrática que hoje já existem e o nosso país estaria seguramente muito melhor.

Neste mês em que se realizarão as eleições autárquicas é pois merecido um forte elogio e homenagem a todos milhares de cidadãos que, por todo o país, por partidos ou organizados em candidaturas independentes, decidiram não ficar em casa simplesmente a criticar e tiveram a coragem de aceitar assumir a responsabilidade de pertencer a uma candidatura na sua freguesia ou no seu concelho, num contexto de grandes dificuldades e desafios e em que o mérito da atividade política é infelizmente menos reconhecido. A todos os que, fortalecendo a nossa democracia local, não tiveram vergonha de dar a cara por aquilo em que acreditam, seja apresentando ideias para programas eleitorais, participando na distribuição de folhetos na estação de comboios à hora de ponta ou colaborando até na subida a um poste para colocar um cartaz.

Que estejamos todos à altura deste tempo singular e de excecionais responsabilidades em que vivemos, participando e votando sempre, pelo nosso futuro e pelo futuro de todos!

Pedro Ramos Almeida
(JORNAL DE LISBOA - EDIÇÃO DE SETEMBRO)

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