terça-feira, 22 de outubro de 2013

Cozido à Portuguesa



 

O reconhecimento de um erro é sempre de relevar para, pelo menos, evitar que o voltemos a cometer. Quando esse erro tem implicações na vida de milhares de cidadãos, a assunção da responsabilidade do erro cometido, importa ser registada. Foi isso que, num tom algo vago, sobressai da longa entrevista que o anterior primeiro-ministro, José Sócrates, deu ao Jornal Expresso. Esse erro, ocorreu, quando em 2009, ganhou as eleições legislativas, sem maioria absoluta, acabando por não ter feito uma “grande coligação” que permitisse a governabilidade do país. Acresce que, esse erro foi tanto maior, quanto Sócrates não ter efetuado as diligências necessárias para chegar a essa coligação.
As consequências são bem conhecidas. Bem à portuguesa, toda a oposição passou a inviabilizar as propostas do Governo, aprovando outras, da sua autoria, que implicaram maior despesa pública (a Lei das Finanças Regionais, então aprovada, é disso um bom exemplo). O culminar da ingovernabilidade ocorreu, quando toda a oposição inviabilizou o PEC IV, o que conduziu à entrada da troika nos assuntos da governação.
Em 2011, já sob assistência internacional, realizaram-se as eleições legislativas, tendo Passos Coelho e Paulo Portas passado a assumir a liderança do país.
Durante estes dois anos, o Governo atual mais não fez do que tentar imputar ao anterior Governo de José Sócrates a responsabilidade pela situação financeira do país, ao mesmo tempo que decidia ir para além da troika, impondo aos portugueses uma severa austeridade.
A meio do percurso, depois de todas as medidas de austeridade terem falhado, Vítor Gaspar abandonou o barco e Paulo Portas encenou uma fuga.
Hoje, com a ajuda do Presidente da República, Paulo Portas e Passos Coelho tentam enredar o maior partido da oposição (com quem nunca tentaram consensualizar reformas fundamentais para o país) nas responsabilidades da governação.
Ora, tal revela-se inaceitável, em virtude do PSD e o PP, que sustentam o atual Governo, não terem assumido o seu erro capital (ou seja, reconhecerem, que estavam errados, quando inviabilizaram um acordo, por duas vezes - aquando do chumbo do PEC IV e, no inicio de funções do atual Governo), com o Partido Socialista.
Na Alemanha, país da União Europeia, que se encontra no auge económico dos últimos 20 anos, Angela Merkel obteve, recentemente, a maior vitória eleitoral de sempre. Contudo, prevendo, dificuldades de governação, por inexistência de maioria absoluta, nem por um segundo, hesitou fazer uma grande coligação com o maior partido da oposição (SPD),que tinha acabado de ser derrotado.
Fica assim à vista, as grandes diferenças de lideranças quanto à governação de um país. De um lado, “Deutschland uber alles” (a Alemanha acima de tudo). Por cá, a opção é pelo “cozido à portuguesa”.
 
 

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

EFEITO NULO?


 
 
De todas as leituras e análises em diferentes perspetivas ou pontos de vistas, mais ou menos influenciadas por interesse próprio, uma das mais significativas e expressivas marcas destas eleições autárquicas foi o aumento anormal e preocupante de votos brancos e nulos. No distrito de Lisboa estes votos passaram de 29.552 em 2009 para 69.792 (8,1%) em 2013, e na cidade de Lisboa de 7.152 em 2009 para 15.832 (6,9%) em 2013, sendo que em ambos os casos ultrapassou largamente a própria votação do Bloco de Esquerda.

Não está neste caso em causa o eleitor comodista que ficou em casa para não apanhar chuva, o eleitor que escolheu a abstenção como forma de protesto ou o eleitor que foi obrigado pelas circunstâncias atuais a emigrar e não estava cá para votar. Estes cidadãos, que não deixaram de exercer o seu dever cívico, estão descontentes com tudo e todos e nem os tradicionais partidos de protesto ou minoritários lhes servem.

É verdade que esta votação tem um efeito nulo na contabilização final dos mandatos e dos representantes e por isso nada conta na mudança de uma política ou de qualquer agente político, podendo até ser feita pedagogia neste sentido. Não obstante, importa que todos os partidos não ignorem ou não desvalorizem e, ao contrário, olhem com humildade para este resultado, percebendo o sentido da mensagem de profunda e crescente insatisfação presente em cada um destes votos. 

O país está num inexorável rumo de degradação económica e social e as pessoas estão cada vez mais descrentes e desesperadas. E com um Governo e um Presidente da República intransigentemente alheados e insensíveis à realidade das famílias portuguesas, não há um pingo de esperança que possa resistir, e os juízos punitivos de generalização sobre os partidos e a revolta contra os políticos, por tudo o que se está a passar, grassam cada vez mais. Quem fez campanha na rua e ouviu os testemunhos e os desabafos de tanta e tanta gente como eu ouvi percebe bem do que estou a falar.

É certo que Portugal ganhou com a vitória clara do Partido Socialista em Lisboa e no país, sinalizando de modo contundente a censura devida e previsível aos partidos do Governo de Direita e à austeridade cega e destruidora da Troika, tornando como cada vez mais provável, mais cedo do que tarde, uma mudança política em próximas eleições nacionais.

Ainda assim, utilizando a famosa expressão do nosso Salgueiro Maia, com «o estado a que chegámos» o grau de exigência aumenta a cada dia e será necessário muito mais do que apenas um Governo novo, que o Presidente da República insistiu em recusar dar ao país. Para reconquistar a confiança perdida de tantos portugueses na nossa democracia, precisamos, mais do que nunca, de um bom Governo, com um programa político progressista, humanista e patriótico, que restaure o orgulho de todos e reconcilie o país na sua diversidade, com um sentido ético irrepreensível imune a interesses económicos ilegítimos, que esteja focado e comprometido com a regeneração das práticas, a renovação dos protagonistas e com um novo pacto social para o futuro do país. Só assim, quem votou branco ou nulo voltará, novamente, a votar útil pela democracia, que é e tem de continuar sempre a ser por todos e para todos.
 
(JORNAL DE LISBOA - EDIÇÃO DE OUTUBRO)