De todas as leituras e análises
em diferentes perspetivas ou pontos de vistas, mais ou menos influenciadas por
interesse próprio, uma das mais significativas e expressivas marcas destas eleições
autárquicas foi o aumento anormal e preocupante de votos brancos e nulos. No
distrito de Lisboa estes votos passaram de 29.552 em 2009 para 69.792 (8,1%) em
2013, e na cidade de Lisboa de 7.152 em 2009 para 15.832 (6,9%) em 2013, sendo
que em ambos os casos ultrapassou largamente a própria votação do Bloco de
Esquerda.
Não está neste caso em causa o
eleitor comodista que ficou em casa para não apanhar chuva, o eleitor que
escolheu a abstenção como forma de protesto ou o eleitor que foi obrigado pelas
circunstâncias atuais a emigrar e não estava cá para votar. Estes cidadãos, que
não deixaram de exercer o seu dever cívico, estão descontentes com tudo e todos
e nem os tradicionais partidos de protesto ou minoritários lhes servem.
É verdade que esta votação tem um
efeito nulo na contabilização final dos mandatos e dos representantes e por
isso nada conta na mudança de uma política ou de qualquer agente político,
podendo até ser feita pedagogia neste sentido. Não obstante, importa que todos
os partidos não ignorem ou não desvalorizem e, ao contrário, olhem com humildade
para este resultado, percebendo o sentido da mensagem de profunda e crescente insatisfação
presente em cada um destes votos.
O país está num inexorável rumo
de degradação económica e social e as pessoas estão cada vez mais descrentes e
desesperadas. E com um Governo e um Presidente da República intransigentemente
alheados e insensíveis à realidade das famílias portuguesas, não há um pingo de
esperança que possa resistir, e os juízos punitivos de generalização sobre os partidos
e a revolta contra os políticos, por tudo o que se está a passar, grassam cada
vez mais. Quem fez campanha na rua e ouviu os testemunhos e os desabafos de
tanta e tanta gente como eu ouvi percebe bem do que estou a falar.
É certo que Portugal ganhou com a
vitória clara do Partido Socialista em Lisboa e no país, sinalizando de modo
contundente a censura devida e previsível aos partidos do Governo de Direita e
à austeridade cega e destruidora da Troika,
tornando como cada vez mais provável, mais cedo do que tarde, uma mudança
política em próximas eleições nacionais.
Ainda assim, utilizando a famosa
expressão do nosso Salgueiro Maia, com «o
estado a que chegámos» o grau de exigência aumenta a cada dia e será
necessário muito mais do que apenas um Governo novo, que o Presidente da
República insistiu em recusar dar ao país. Para reconquistar a confiança
perdida de tantos portugueses na nossa democracia, precisamos, mais do que
nunca, de um bom Governo, com um programa político progressista, humanista e
patriótico, que restaure o orgulho de todos e reconcilie o país na sua
diversidade, com um sentido ético irrepreensível imune a interesses económicos
ilegítimos, que esteja focado e comprometido com a regeneração das práticas, a
renovação dos protagonistas e com um novo pacto social para o futuro do país. Só
assim, quem votou branco ou nulo voltará, novamente, a votar útil pela
democracia, que é e tem de continuar sempre a ser por todos e para todos.
(JORNAL DE LISBOA - EDIÇÃO DE OUTUBRO)
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