quinta-feira, 17 de outubro de 2013

EFEITO NULO?


 
 
De todas as leituras e análises em diferentes perspetivas ou pontos de vistas, mais ou menos influenciadas por interesse próprio, uma das mais significativas e expressivas marcas destas eleições autárquicas foi o aumento anormal e preocupante de votos brancos e nulos. No distrito de Lisboa estes votos passaram de 29.552 em 2009 para 69.792 (8,1%) em 2013, e na cidade de Lisboa de 7.152 em 2009 para 15.832 (6,9%) em 2013, sendo que em ambos os casos ultrapassou largamente a própria votação do Bloco de Esquerda.

Não está neste caso em causa o eleitor comodista que ficou em casa para não apanhar chuva, o eleitor que escolheu a abstenção como forma de protesto ou o eleitor que foi obrigado pelas circunstâncias atuais a emigrar e não estava cá para votar. Estes cidadãos, que não deixaram de exercer o seu dever cívico, estão descontentes com tudo e todos e nem os tradicionais partidos de protesto ou minoritários lhes servem.

É verdade que esta votação tem um efeito nulo na contabilização final dos mandatos e dos representantes e por isso nada conta na mudança de uma política ou de qualquer agente político, podendo até ser feita pedagogia neste sentido. Não obstante, importa que todos os partidos não ignorem ou não desvalorizem e, ao contrário, olhem com humildade para este resultado, percebendo o sentido da mensagem de profunda e crescente insatisfação presente em cada um destes votos. 

O país está num inexorável rumo de degradação económica e social e as pessoas estão cada vez mais descrentes e desesperadas. E com um Governo e um Presidente da República intransigentemente alheados e insensíveis à realidade das famílias portuguesas, não há um pingo de esperança que possa resistir, e os juízos punitivos de generalização sobre os partidos e a revolta contra os políticos, por tudo o que se está a passar, grassam cada vez mais. Quem fez campanha na rua e ouviu os testemunhos e os desabafos de tanta e tanta gente como eu ouvi percebe bem do que estou a falar.

É certo que Portugal ganhou com a vitória clara do Partido Socialista em Lisboa e no país, sinalizando de modo contundente a censura devida e previsível aos partidos do Governo de Direita e à austeridade cega e destruidora da Troika, tornando como cada vez mais provável, mais cedo do que tarde, uma mudança política em próximas eleições nacionais.

Ainda assim, utilizando a famosa expressão do nosso Salgueiro Maia, com «o estado a que chegámos» o grau de exigência aumenta a cada dia e será necessário muito mais do que apenas um Governo novo, que o Presidente da República insistiu em recusar dar ao país. Para reconquistar a confiança perdida de tantos portugueses na nossa democracia, precisamos, mais do que nunca, de um bom Governo, com um programa político progressista, humanista e patriótico, que restaure o orgulho de todos e reconcilie o país na sua diversidade, com um sentido ético irrepreensível imune a interesses económicos ilegítimos, que esteja focado e comprometido com a regeneração das práticas, a renovação dos protagonistas e com um novo pacto social para o futuro do país. Só assim, quem votou branco ou nulo voltará, novamente, a votar útil pela democracia, que é e tem de continuar sempre a ser por todos e para todos.
 
(JORNAL DE LISBOA - EDIÇÃO DE OUTUBRO)

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