Quando entramos no último ano da Troika
em Portugal é fácil constatar que nas nossas vidas tudo o que mudou foi para
pior. O Governo que hoje chora lágrimas de crocodilo pelos efeitos das suas
políticas é o mesmo Governo alicerçado em dois partidos que desejaram e tudo
fizeram pela intervenção do FMI para depois aproveitarem a boleia e colocarem
em prática o seu modelo de sociedade até aos limites da nossa Constituição.
Nestes anos, conseguiram enfraquecer o
Estado para dar primazia aos grupos económicos, desqualificar serviços públicos
e favorecer os interesses privados, reduzir direitos sociais privilegiando com
mais poder os que mais têm. Muitas das marcas de progresso do nosso passado
recente foram destruídas ou desmanteladas despudoradamente por aqueles que
agora reclamam uma “reforma do Estado” obcecada pela redução de despesa e
desfocada da eficiência e modernização do serviço público.
O contrato de assistência financeira, que
se tornou inevitável à custa do chumbo do PEC IV, depois de todas as revisões é
uma caricatura do inicial. É um documento esventrado ao sabor das conveniências
ideológicas e dos nossos credores financeiros, com a discordância dos parceiros
sociais e sem auscultação dos partidos da oposição, através de doses
suplementares de cortes e austeridade cega fundados em erros técnicos e
irresponsabilidade política que atiraram para o fundo a nossa frágil Economia,
derrubando as empresas e empobrecendo drasticamente os portugueses.
À imagem da mais ortodoxa Direita
neo-liberal, o sentido patriótico foi substituído pelo sentido do “salve-se
quem puder”. Portugal está à deriva, à espera de um incógnito programa cautelar
que chancelará o fracasso das políticas governativas, perdido num mar de jogos
e interesses particulares, de elites silenciosas e desresponsabilizadas, tantas
vezes protegidas por uma conivente comunicação social.
Infelizmente, a precariedade e o
pessimismo induzidos por estas políticas faz triunfar a cultura do
individualismo e a descrença no interesse colectivo, na nossa história e
identidade como povo. A desesperança que revolta vai sendo vencida pelo medo
que desmobiliza. E este é um caminho que nos quer encurralar num destino trágico
de ataque aos fundamentos da democracia que não podemos aceitar.
Hoje, mais do que nunca, importa afirmar
alternativas, promover a solidariedade militante, dar sentido à cidadania
activa, agir em torno de ideias novas soltas do conforto da crítica e do
protesto inconsequentes, que resolvam efectivamente problemas, superando o
desafio da sustentabilidade do nosso Estado social, sem pisar os direitos
cívicos e sociais arduamente conquistados por gerações e gerações de
portugueses.
3 anos depois, chegou o tempo resgatarmos
o nosso futuro.
Pedro Ramos Almeida
(Jornal de Lisboa - Janeiro)
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