sábado, 11 de janeiro de 2014

3 ANOS DEPOIS






Quando entramos no último ano da Troika em Portugal é fácil constatar que nas nossas vidas tudo o que mudou foi para pior. O Governo que hoje chora lágrimas de crocodilo pelos efeitos das suas políticas é o mesmo Governo alicerçado em dois partidos que desejaram e tudo fizeram pela intervenção do FMI para depois aproveitarem a boleia e colocarem em prática o seu modelo de sociedade até aos limites da nossa Constituição.


Nestes anos, conseguiram enfraquecer o Estado para dar primazia aos grupos económicos, desqualificar serviços públicos e favorecer os interesses privados, reduzir direitos sociais privilegiando com mais poder os que mais têm. Muitas das marcas de progresso do nosso passado recente foram destruídas ou desmanteladas despudoradamente por aqueles que agora reclamam uma “reforma do Estado” obcecada pela redução de despesa e desfocada da eficiência e modernização do serviço público.


O contrato de assistência financeira, que se tornou inevitável à custa do chumbo do PEC IV, depois de todas as revisões é uma caricatura do inicial. É um documento esventrado ao sabor das conveniências ideológicas e dos nossos credores financeiros, com a discordância dos parceiros sociais e sem auscultação dos partidos da oposição, através de doses suplementares de cortes e austeridade cega fundados em erros técnicos e irresponsabilidade política que atiraram para o fundo a nossa frágil Economia, derrubando as empresas e empobrecendo drasticamente os portugueses.


À imagem da mais ortodoxa Direita neo-liberal, o sentido patriótico foi substituído pelo sentido do “salve-se quem puder”. Portugal está à deriva, à espera de um incógnito programa cautelar que chancelará o fracasso das políticas governativas, perdido num mar de jogos e interesses particulares, de elites silenciosas e desresponsabilizadas, tantas vezes protegidas por uma conivente comunicação social.


Infelizmente, a precariedade e o pessimismo induzidos por estas políticas faz triunfar a cultura do individualismo e a descrença no interesse colectivo, na nossa história e identidade como povo. A desesperança que revolta vai sendo vencida pelo medo que desmobiliza. E este é um caminho que nos quer encurralar num destino trágico de ataque aos fundamentos da democracia que não podemos aceitar.


Hoje, mais do que nunca, importa afirmar alternativas, promover a solidariedade militante, dar sentido à cidadania activa, agir em torno de ideias novas soltas do conforto da crítica e do protesto inconsequentes, que resolvam efectivamente problemas, superando o desafio da sustentabilidade do nosso Estado social, sem pisar os direitos cívicos e sociais arduamente conquistados por gerações e gerações de portugueses.


3 anos depois, chegou o tempo resgatarmos o nosso futuro.
Pedro Ramos Almeida
(Jornal de Lisboa  - Janeiro)



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