Não podia haver pior forma de
comemorar os 40 anos do 25 de Abril. O INE revelou os resultados avassaladores
do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento dos portugueses em 2012. Neste
ano 18,7 por cento da população portuguesa estava em risco de pobreza, mais
oito pontos percentuais que em 2011. Em 2013, 10,9% da população estava em
privação material severa. E esta é a realidade nua e crua que
nenhum truque de marketing ou pirueta argumentativa consegue esconder. Este é o
cenário real de um processo fulminante de empobrecimento do nosso país, fundado
na cegueira de uma austeridade dogmática e sem limites éticos do Governo com
maior insensibilidade social da história da nossa democracia.
40 anos depois, num tempo em que nos
tentam empurrar para a inevitabilidade de um caminho único, e em que cada vez
mais são aqueles, de todos os setores ideológicos, que não se resignam e ousam
apontar alternativas, lembro aqueles que estando dentro de um tanque na Rua do
Arsenal naquele saudoso dia 25, mas do lado dos que procuravam travar a
revolução em marcha, desobedeceram às ordens de um brigadeiro idiota, recusaram
disparar contra Salgueiro Maia e juntaram-se aos que lutavam pela liberdade.
Perante um país em penúria e sem
esperança, capturado por uma espiral de autodestruição e uma visão masoquista
de futuro, as diferenças partidárias podem conjugar-se cada vez mais num
imperativo patriótico de sobrevivência. O chamado manifesto do 70 sobre a
reestruturação da dívida que juntou personalidades como Ferreira Leite, Adriano
Moreira e Freitas do Amaral a Francisco Louçã e João Cravinho significou um
importante exercício de lucidez política que demonstrou isso mesmo.
A obstinação irresponsável e o apego
desmedido ao poder dos nossos governantes vão sendo assim irremediavelmente
vencidos por esta nova maioria social em formação, que vai da esquerda à
direita, e que, tal como os militares do confronto da Rua do Arsenal em Abril
de 74, recusa obedecer aos inexoráveis ditames da austeridade, e ultrapassando
barricadas, é protagonizada por todos aqueles que sabem colocar à frente de uma
fidelidade partidária acrítica, os seus valores e uma cidadania exigente pela
defesa do interesse nacional.
Pedro Ramos Almeida