segunda-feira, 31 de março de 2014

RUA DO ARSENAL




Não podia haver pior forma de comemorar os 40 anos do 25 de Abril. O INE revelou os resultados avassaladores do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento dos portugueses em 2012. Neste ano 18,7 por cento da população portuguesa estava em risco de pobreza, mais oito pontos percentuais que em 2011. Em 2013, 10,9% da população estava em privação material severa. E esta é a realidade nua e crua que nenhum truque de marketing ou pirueta argumentativa consegue esconder. Este é o cenário real de um processo fulminante de empobrecimento do nosso país, fundado na cegueira de uma austeridade dogmática e sem limites éticos do Governo com maior insensibilidade social da história da nossa democracia.
40 anos depois, num tempo em que nos tentam empurrar para a inevitabilidade de um caminho único, e em que cada vez mais são aqueles, de todos os setores ideológicos, que não se resignam e ousam apontar alternativas, lembro aqueles que estando dentro de um tanque na Rua do Arsenal naquele saudoso dia 25, mas do lado dos que procuravam travar a revolução em marcha, desobedeceram às ordens de um brigadeiro idiota, recusaram disparar contra Salgueiro Maia e juntaram-se aos que lutavam pela liberdade. 
Perante um país em penúria e sem esperança, capturado por uma espiral de autodestruição e uma visão masoquista de futuro, as diferenças partidárias podem conjugar-se cada vez mais num imperativo patriótico de sobrevivência. O chamado manifesto do 70 sobre a reestruturação da dívida que juntou personalidades como Ferreira Leite, Adriano Moreira e Freitas do Amaral a Francisco Louçã e João Cravinho significou um importante exercício de lucidez política que demonstrou isso mesmo.
A obstinação irresponsável e o apego desmedido ao poder dos nossos governantes vão sendo assim irremediavelmente vencidos por esta nova maioria social em formação, que vai da esquerda à direita, e que, tal como os militares do confronto da Rua do Arsenal em Abril de 74, recusa obedecer aos inexoráveis ditames da austeridade, e ultrapassando barricadas, é protagonizada por todos aqueles que sabem colocar à frente de uma fidelidade partidária acrítica, os seus valores e uma cidadania exigente pela defesa do interesse nacional.   
Pedro Ramos Almeida



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