segunda-feira, 8 de setembro de 2014

CASA ROUBADA SEM TRANCAS À PORTA



Em 2008, o colapso financeiro internacional forçou os países a cobrirem os inerentes prejuízos para as economias, apoiando bancos, empresas e famílias, e para isso endividando-se até ao limite. Foi esse o sentido do firmado como estratégia de resposta à crise por todos os líderes europeus.

Toda a credibilidade do sistema bancário e financeiro havia sido posta em causa, arrastando também a ineficácia dos mecanismos de supervisão e expondo a total irresponsabilidade patente na desregulação e liberalização de produtos financeiros mais sofisticados, na confusão induzida entre banca comercial e banca de investimento, e na cumplicidade de auditores e insignes economistas que legitimaram tecnicamente durante vários anos este status quo potencialmente ruinoso.

E quando se impunham ações imediatas e determinadas de reforço de prevenção e da regulação, cedo se percebeu que afinal os governos europeus vergariam novamente à lógica implacável e eticamente cega dos mercados, reféns uma vez mais das mesmas agências de notação que camuflaram o verdeiro regabofe no mundo dos fundos de investimento, dos SWAP e afins. Depois de empurrados para salvar a economia com despesa pública numa primeira fase, os países foram então despejados, por conta do seu nível de endividamento, numa espiral de austeridade punitiva de direitos e conquistas sociais que se julgavam irreversíveis e que semeou desemprego e empobrecimento por todo o lado. Um ciclo de austeridade que acabou por servir, na prática, para reabilitar financeiramente muitos dos mesmos que haviam causado a pior crise económica dos últimos cem anos.

Para mais tarde ficaram as mudanças que teriam sido exigíveis desde o início do problema. Durante mais de 5 anos, a Europa, envolvendo os Governos, Comissão Europeia e o Parlamento Europeu, debateu um novo enquadramento normativo, através de novas directivas comunitárias. E só depois de todo este tempo, se propuseram finalmente regras mais exigentes para a atividade bancária que ficaram ainda dependentes da respetiva transposição por legislação dos próprios Estados-Membros.

Fixado o prazo de 6 meses para transposição da mais importante das directivas, que terminou no final do ano de 2013, importa verificar: o que fez até agora Portugal? Cumpriu este prazo? Mesmo com a autorização legislativa já conferida pelo nosso Parlamento, incrivelmente, continuamos à espera em Agosto de 2014 que o Governo decida legislar conforme se comprometeu e complete a sua transposição para o ordenamento jurídico português, incluindo novas regras mais exigentes que agravarão, nomeadamente, o regime punitivo das infrações no âmbito da regulação da atividade bancária. Em bom rigor, muito está ainda por aprovar pelo Governo excepto as novas regras que permitiram a legitimação legal (clandestinamente preparada) para a opção “NOVO BANCO”.

Medo? Conivência? Depois dos casos BCP, do BPN, do BPP e agora, depois da estrondosa hecatombe do caso BES, não pode merecer confiança um Governo que, apesar da força das evidências, continua a atrasar a concretização de instrumentos jurídicos fundamentais na prevenção e punição de agentes e práticas financeiras criminosas e, ao mesmo tempo, corre para salvar um Banco, utilizando o dinheiro dos contribuintes.

E conhecendo o sucessivo elenco de episódios recentes, ao lado desta inércia legislativa incompreensível do Governo, também não pode merecer credibilidade um Governador do Banco de Portugal que se contradiz nos seus próprios comunicados, convive quase passivamente com a infração durante meses, induz em erro investidores e depositantes e se permite decidir o destino de bancos com total opacidade, ao mesmo tempo facilitando que alguns enriqueçam aos milhões na sombra das suas próprias incapacidades como regulador e à custa de muitos que em si confiaram. 

Perante a tragédia económica e social provocada por esta espécie de plutocracia com ramificações em todo o Mundo, é urgente agir para restaurar a confiança perdida e combater a injustiça reinante em que o lucro fácil e ganância de alguns atropelam a felicidade e bem-estar de muitos que honestamente trabalham e pagam os seus impostos.

As lágrimas de crocodilo de circunstância de nada valem perante a realidade concreta dos factos. Um Governo sério não pode atirar as suas responsabilidades para o lado, criar a ilusão de que está feito o que ainda não está, adiar ou hesitar como está a acontecer. Impõem-se decisões e soluções que permitam reconstruir efetivamente a credibilidade do nosso sistema de regulação e supervisão bancária e financeira, que vão muito para além do mero controlo dos índices de liquidez e capitalização, que terminem definitivamente com a impunidade, com a promiscuidade de interesses, com os “buracos negros” fiscais e com a ineficácia de métodos de fiscalização em que, por exemplo, auditores são escolhidos e pagos principescamente pelos próprios auditados sem nunca existir qualquer tipo de responsabilização pelos seus falhanços.

Porque esta “casa roubada”, que é de todos, não pode continuar “sem trancas à porta”.

Publicado no "Jornal de Lisboa - Setembro"

Sem comentários: