quarta-feira, 10 de setembro de 2014

JUSTIÇA SUSPENSA




O estado da Justiça em Portugal é motivo da maior preocupação dos agentes que com ela diariamente trabalham – oficiais de justiça, conservadores, notários, advogados e magistrados – e, sobretudo, dos cidadãos. Isto, pese embora Portugal ter uma das melhores médias europeias na relação entre o número de profissionais (altamente qualificados) e o número de habitantes. No caso dos juízes e procuradores essa média é, inclusive, ainda mais favorável (dentro daquilo que o Conselho da Europa considera serem os sistemas judiciários comparáveis).

Contudo, a partir da década de noventa, o número de processos cresceu exponencialmente, fenómeno que se tem agravado com a judicialização de tudo o que diz respeito à nossa vida quotidiana. Das relações de vizinhança à política, tudo vai parar aos Tribunais.

O número de processos pendentes é assustador e a maior (e mais recente) reforma do sistema - as medidas de simplificação administrativa (simplex) e o uso obrigatório de sistemas informáticos no recurso aos tribunais - apenas conseguiu atenuar uma evidência: a de que não obstante a justiça funcionar, está cada vez mais paralisada. O que para muitos, é o mesmo que não funcionar.

Não há Governo, nem governante da tutela, que não queira deixar a sua “marca” na Justiça. O Governo em funções também não escapou à tentação e, vai daí, por força de mais umas alterações legislativas, com a “chancela” da maioria PSD/PP, os últimos meses tenham sido caraterizados pelo não agendamento de audiências de julgamento, extinção de tribunais, processos judiciais amontados e outros transportados em carrinhos de mão e atirados como tijolos, tribunais a funcionarem em contentores e finalmente o colapso total de sistema informático.

Ainda é cedo para avaliar da bondade das alterações legislativas com que nos brindaram, mas podemos já ter uma certeza. A Justiça está suspensa e não há memória de nada assim!

Em tempos, houve já quem tivesse lançado a ideia de suspensão da democracia por uns meses, felizmente sem sucesso. Este Governo, contudo, foi mais prático, suspendeu a Justiça. É obra!

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