terça-feira, 4 de novembro de 2014

Milagres




Manuel Alegre, em entrevista ao Diário de Noticias deste fim-de-semana, refere-se a António Costa, candidato a Primeiro-Ministro pelo Partido Socialista, nos seguintes moldes: “A expectativa é muito alta, ele encarnou uma grande esperança e uma grande vontade de mudança, há um peso grande sobre os seus ombros. As pessoas quase que lhe exigem milagres. Mas às vezes os políticos têm de fazer milagres. Qual é o primeiro milagre? É reconstituir a confiança dos portugueses, restituir-lhes a própria alegria de viver e de estarem aqui".

As expectativas face a António Costa são de facto muito elevadas. Não só pelo seu percurso político – mais visível nos últimos anos à frente da Câmara Municipal de Lisboa – mas sobretudo pela vitória inequívoca que obteve nas eleições primárias abertas a militantes e a simpatizantes, que o partido socialista recentemente realizou.

Acresce relevar que os partidos que integram o Governo se encontram muito desgastados e dificilmente obterão resultados conducentes à sua continuidade na governação do país. Se dúvidas houvesse, os resultados das eleições autárquicas e europeias mostram um claro descontentamento dos portugueses em relação à maioria PSD/PP que nos governa.

Acontece ainda que da Europa sopram sinais não desprezíveis de mudanças nos países onde as políticas de austeridades não deram os resultados esperados (Grécia, Itália, Espanha). Nestes países, sondagens recentes indiciam uma deslocação da preferência dos eleitores dos partidos tradicionais para outras forças políticas, de que são exemplos respectivamente o Syriza, Movimento 5 Estrelas e o Podemos.

Por outro lado, observa-se que a tão criticada, mas politicamente estável, Alemanha que é governada em coligação ao centro (CDU e SPD), parece ter estancado o crescimento da extrema-direita (ao contrário do que acontece, por exemplo, em França).

Regressando ao pensamento de Alegre e a cerca de um ano das eleições legislativas - e um ano, em política, é muito tempo – o PS deve preparar-se para enfrentar, da parte das forças políticas que suportam o governo, o discurso da necessidade da estabilidade politica e o da “mudança radical” por parte da esquerda radical e de Marinho Pinto.

Neste contexto, as expectativas tão elevadas que recaem sobre António Costa, obrigam a um trabalho redobrado dentro do maior partido da oposição, atento a que à esquerda e à direita, todos, sem exceção, irão tentar capitalizar os votos dos eleitores descontentes com as políticas de “austeridade, a todo o custo”, deste Governo.

Importa assim que o PS, enquanto maior partido da oposição, venha a clarificar as medidas que visem dar cumprimento aos “milagres” de que fala Alegre.

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