Manuel Alegre, em entrevista ao Diário
de Noticias deste fim-de-semana, refere-se a António Costa, candidato a
Primeiro-Ministro pelo Partido Socialista, nos seguintes moldes: “A expectativa
é muito alta, ele encarnou uma grande esperança e uma grande vontade de
mudança, há um peso grande sobre os seus ombros. As pessoas quase que lhe
exigem milagres. Mas às vezes os políticos têm de fazer milagres. Qual é o
primeiro milagre? É reconstituir a confiança dos portugueses, restituir-lhes a
própria alegria de viver e de estarem aqui".
As expectativas face a António Costa
são de facto muito elevadas. Não só pelo seu percurso político – mais visível
nos últimos anos à frente da Câmara Municipal de Lisboa – mas sobretudo pela
vitória inequívoca que obteve nas eleições primárias abertas a militantes e a
simpatizantes, que o partido socialista recentemente realizou.
Acresce relevar que os partidos que
integram o Governo se encontram muito desgastados e dificilmente obterão
resultados conducentes à sua continuidade na governação do país. Se dúvidas
houvesse, os resultados das eleições autárquicas e europeias mostram um claro
descontentamento dos portugueses em relação à maioria PSD/PP que nos governa.
Acontece ainda que da Europa sopram sinais
não desprezíveis de mudanças nos países onde as políticas de austeridades não
deram os resultados esperados (Grécia, Itália, Espanha). Nestes países, sondagens
recentes indiciam uma deslocação da preferência dos eleitores dos partidos
tradicionais para outras forças políticas, de que são exemplos respectivamente
o Syriza, Movimento
5 Estrelas e o Podemos.
Por outro lado, observa-se que a tão criticada, mas politicamente estável,
Alemanha que é governada em coligação ao centro (CDU e SPD), parece ter estancado
o crescimento da extrema-direita (ao contrário do que acontece, por exemplo, em
França).
Regressando ao pensamento de Alegre e a
cerca de um ano das eleições legislativas - e um ano, em política, é muito
tempo – o PS deve preparar-se para enfrentar, da parte das forças políticas que
suportam o governo, o discurso da necessidade da estabilidade politica e o da
“mudança radical” por parte da esquerda radical e de Marinho Pinto.
Neste contexto, as expectativas tão
elevadas que recaem sobre António Costa, obrigam a um trabalho redobrado dentro
do maior partido da oposição, atento a que à esquerda e à direita,
todos, sem exceção, irão tentar capitalizar os votos dos eleitores descontentes
com as políticas de “austeridade, a todo o custo”, deste Governo.
Importa assim que o PS, enquanto maior partido da
oposição, venha a clarificar as medidas que visem dar cumprimento aos “milagres”
de que fala Alegre.

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