Hoje
é uma evidência que o episódio lamentável vivido pelo nosso país em julho de
2013, de fragmentação e decomposição iminente da legitimidade política do
Governo custou muito caro ao país. Quando Gaspar, principal mentor das
políticas económicas e orçamentais, atirou a toalha ao chão, com ele desabou
toda uma estratégia marcada pelo rotundo fracasso, à custa do sacrifício de
milhões de portugueses.
Portas
viu nesse momento uma oportunidade para ganhar força no Governo, muito acima do
que o seu partido recolheu em votos junto dos portugueses.
Nas cordas e à beira do abismo, Passos Coelho comprou a paz e mais dois anos de
vida no poder, com o lugar de Vice-Primeiro-Ministro e a pasta adicional e
crucial da Economia. Com o acordo ficaram enterradas as desconfianças de Portas
sobre Maria Luís, o «partido dos
contribuintes», «o cisma grisalho e a
linha vermelha» e, claro está, a inefável e mítica «demissão irrevogável».
Ficou
nesta ocasião patente que o Governo trabalha verdadeiramente em pés de barro,
iluminado apenas por uma vontade de se manter no poder, sem uma identificação
plena relativamente ao rumo do país, saltitando entre a austeridade moralista e
o populismo desbragado. Chega até a ser penoso assistir, tal e qual os
casamentos de conveniência, como os Deputados da maioria de um e outro partido,
hipocritamente e de sorriso nos lábios, de jornadas parlamentares em jornadas
parlamentares, procuram colar os cacos dos desmandos desastrosos dos vários
membros do Governo, seja na Justiça, na Educação, nas Finanças ou na Segurança
Social.
Quando
nos aproximamos das eleições, em que avaliação conjunta dos anos do Governo
deveria ser um momento de orgulho mobilizador para os empenhados militantes do
PSD e do CDS, as dúvidas sobre a continuidade do «matrimónio» persistem e os casos de desentendimento e traição
pululam no quotidiano da vida governativa que entrou, há muito, numa triste
espiral de descrédito.
Na
proposta de reforma do IRS, assistimos a um Secretário de Estado do CDS a
desmentir e a alterar a posição pública do Primeiro-Ministro, sobre a cláusula
de salvaguarda, sem que o mesmo estivesse avisado.
Sobre
os feriados abolidos, o Vice-Primeiro-Ministro vem admitir publicamente a
reposição do 1.º de dezembro, à revelia da vontade do Primeiro-Ministro e do
PSD.
No
caso dos Vistos Gold, uma semana depois de Portas ter assumido no Parlamento
que considerava desnecessário e impertinente escrutinar os vistos atribuídos, a
nova Ministra da Administração Interna vem desautorizá-lo e fazer exatamente o
contrário, encomendando à respetiva inspeção-geral uma auditoria urgente.
Chegámos
ao ponto incrível de assistir em direto na televisão, o Ministro da Economia
dizer que não sabia das tolerâncias de ponto que tinham sido decididas umas
horas antes pelo seu Governo.
E sobre
esta história, não podemos esquecer o ex-ministro Álvaro Santos Pereira, que recentemente
deu também o seu contributo em livro, revelando à minúcia como a gestão e o
critério estritamente partidário, em áreas críticas para o país, orientam as
relações entre PSD e CDS no Governo, prevalecendo sobre o interesse público.
Por
tudo isto, não pode considerar-se surpreendente que Paulo Portas e o seu
partido no último Conselho Nacional tenham decidido, a poucos meses das
legislativas, preparar listas e um programa de Governo autónomo, indiferente e completamente
alheado da agenda e do interesse do seu partido parceiro na coligação.
A
questão que se coloca é pois se o CDS não confia no PSD e o PSD não confia ou
hesita em confiar em Portas e no CDS, como podem os portugueses confiar a sua
vida e o seu futuro neste Governo?
Pedro
Ramos Almeida
(JORNAL DE LISBOA - EDIÇÃO JANEIRO/publicado em 22.12.2014)

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