quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Segredo de Justiça e segredos de crianças




A temática do segredo de justiça reassumiu recentemente destaque significativo nos meios de comunicação social graças aos múltiplos casos judiciais em curso e à revelação pública de actos praticados nos mesmos, não obstante não poder ser divulgado o conteúdo dos actos processuais.

Mal o ano começou foram ouvidos, na comissão de inquérito ao BES, o seu ex controller financeiro José Castella, e o contabilista do grupo, Francisco Machado da Cruz. Invocando o segredo de justiça, ambos pediram para ser ouvidos à porta fechada, o que foi aceite.

A explicação dada pelo presidente da comissão de inquérito, o social-democrata Fernando Negrão, foi a seguinte: «Solicitam que as reuniões sejam feitas à porta fechada, sendo que ambos me deram a garantia de que, sendo à porta fechada, falariam sobre as matérias em causa e responderiam às perguntas formuladas pelos senhores deputados. Não só os próprios continuam vinculados ao segredo de justiça, como o segredo de justiça se estende a todos os que estão presentes na sala». 

Enquanto decorriam as audições, os órgãos de comunicação social faziam o relato - quase em direto e de forma minuciosa - do que nas mesmas se estava a passar. Tudo ocorreu à luz de fontes incógnitas , impunemente, por não se saber quem os municiou com tão sigilosa informação.

Com o alarido gerado pela violação do segredo de justiça, até o meu filho de 7 anos, curioso, me pediu para lho explicar.

A uma criança de 7 anos, pode-se explicar o segredo de justiça recorrendo à analogia com o segredo da escola. Quando na escola uma criança “faz uma asneira”, ao verificar que o seu colega de carteira sabe, não querendo que professores, pais e demais colegas saibam, pede-lhe segredo. E até lhe pede que “jure que não conta a ninguém”. O colega de carteira jura e promete que não conta a ninguém. Contudo, no intervalo fala com o seu melhor amigo e acaba por lhe contar, não sem antes lhe pedir absoluto segredo. Este, ávido de saber a “traquinice” do outro colega, facilmente acede à promessa de segredo. Porém, acontece que rapidamente toda a pequenada sabe da asneira em causa. Como na escola em causa existem crianças de diferentes faixas etárias, a versão inicial da asneira muda em função do grau de erudição de cada uma. Assim, não admira que a versão original da asneira em nada corresponda às versões que circulem na escola (apesar de existir uma asneira e saber-se que houve uma criança que a praticou). O miúdo que praticou a asneira acaba por desmentir a versão que chegou ao conhecimento dos professores (ou dos pais), dizendo ser mentira! Ou então confessa a sua versão e depois de um ralhete, acaba desculpado.

Em suma, tal como na violação do segredo de justiça, ninguém é punido.