quarta-feira, 22 de abril de 2015

Vícios privados, virtudes públicas




No seu mais recente relatório sobre estabilidade financeira, o Fundo Monetário Internacional (FMI) alerta que os "elevados níveis de dívida no sector privado continuam a ser um obstáculo ao crescimento e à estabilidade financeira”. E, segundo a mesma organização internacional “a dívida privada tem sido, aliás, um dos principais problemas na economia portuguesa”.

Em Portugal, estima-se que, no final de 2014, a dívida das famílias seja de 82,6% do PIB e que a dívida das empresas (dívida empresarial bruta) venha a cifrar-se num valor ainda mais elevado, em torno dos 108,5% do PIB.

Estes dados deveriam merecer a maior preocupação e a melhor reflexão dos governantes, uma vez que relevam que o sector privado em Portugal, não gere bem o que era “suposto dever gerir”, sobretudo quando comparamos o quadro legal em que se move o gestor privado (sob “chapéu” da livre iniciativa e dos salários milionários) com o do gestor público (sob o estigma da gestão pública e a quem por lei, são impostas um sem número de restrições). Contudo, tem sido quase só a dívida pública - e não a dívida privada – que tem sido apresentada à opinião politica como a responsável de todos os males.

Os números ora revelados não constituem surpresa. As grandes derrocadas financeiras (falências) em Portugal – em particular na Banca, de que são exemplo o BPN e o Banco Espírito Santo - evidenciavam grandes debilidades na gestão do setor privado.

Não foi só na Banca que o elevado endividamento e a má gestão foram notícia nos últimos anos. A “queda” abrupta em bolsa da Portugal Telecom (tida como exemplo de sucesso empresarial e de internacionalização), cujos contornos reais ainda se encontram por esclarecer, é também outro bom exemplo. Na hotelaria, o colapso do grupo CS do empresário Carlos Saraiva, arrastou consigo centenas de pequenas e médias empresas e deixou em situação desesperada um número elevado de trabalhadores.

Não obstante a evidência da “ausência de gestão” ou mesmo de existência de “gestão danosa”, os gestores privados dessas nossas empresas encontram-se entre os mais bem pagos em Portugal (mais bem pagos até que os gestores de empresas congéneres do outro lado do Atlântico, significativamente maiores).  

Estes exemplos replicados por todo o país – quem é que na sua cidade não conhece uma mão cheia de “boas” empresas falidas – tiveram efeitos devastadores na economia e reflexos graves na vida das pessoas. 

A gestão privada tem revelado dolorosas fragilidades, que o FMI aponta agora como obstáculo ao crescimento e à estabilidade financeira.