O Prof. Aníbal Cavaco Silva foi sempre extremamente cauteloso nas suas afirmações públicas. O Professor de Economia, deu-se sempre melhor com os números do que com as palavras. Aníbal Cavaco Silva construiu toda uma carreira política com base na hábil gestão do silêncio.
Da véspera do Congresso da Figueira, e da célebre rodagem ao BX, ao tabu da recandidatura em 1995 quase tudo de significativo foi feito de silêncio ou de cortes inesperados após longos períodos de silêncio. Veja-se o artigo do monstro contra o Orçamento de Estado de Guterres e o artigo da má moeda contra Santana Lopes. O problema de Cavaco Silva não é portanto gerir silêncios.
O problema de Cavaco é sim gerir a pressão de responder à imprensa sempre que esta lhe invade a "zona de conforto".
Foi a assim com o célebre episódio do Bolo-Rei, na sua primeira campanha presidencial e foi assim agora com as pensões de reforma. E esses dois momentos definem o homem. Não tolera perguntas incómodas e não tem a firmeza moral para encarnar o Exemplo de que tanto a Nação necessita. Se de facto Cavaco sentisse como seu o desconforto de quem viu a sua pensão diminuída ou salário cortado, como aliás não perde oportunidade de re-afirmar quando tem uma câmara ou microfone por perto, teria ele própio renunciado ao 13º e 14º mês da pensão do Banco de Portugal. Resolveria isso o problema nacional? Obviamente que não. Mas daria a todos a noção de que todos, realmente todos, contribuiamos para a solução nacional. No mínimo poderia ter seguido o exemplo de Miguel Beleza, que apelava a esse corte.
Afinal de contas, Aníbal não recebe apenas acções de que desconhece o valor, nem possuí casas de que não conhece escritura. Afinal de contas, Aníbal desconhece o valor de uma das suas pensões de reforma. Afinal de contas, Aníbal, coitado, até perderia dinheiro ao ser Presidente da República.
No final, afinal de contas, saiu-nos a fava e ao Aníbal saiu o brinde.
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